É difícil ter qualquer tipo de otimismo quando estamos no olho do furacão. Mas, no final de tudo, vamos sobreviver. Sempre sobrevivemos.
Há pouco menos de 20 anos aconteceu um fenômeno único que mudou percepção que toda uma geração tinha sobre a luz elétrica: o apagão.
Os mais novos não vão lembrar – eu mesmo devia ter uns 11 ou 12 anos na época – mas foi um pequeno caos. Era preciso economizar uma boa porcentagem do seu consumo de eletricidade para não pagar uma multa astronômica para a distribuidora de eletricidade.
Além disso, às vezes a luz simplesmente apagava. Sobrecarregávamos o sistema e tudo caía.
Imagine-se morando no Rio de Janeiro, em pleno verão, com a temperatura perto dos 40 graus, escutando que teria que dormir sem ar-condicionado por causa do racionamento de energia, aos 12 anos de idade, sem entender muita coisa.
Pois é. Não foi agradável.
Um aviso importante se faz necessário para os amigos de outros estados, especialmente São Paulo: o que, para muitos, é visto como um artigo de luxo, no Rio de Janeiro é considerado um artigo de sobrevivência; todas as casas têm um ar-condicionado pelo menos nos quartos para tornar possível o simples ato de dormir. O que é uma semana de calor insuportável aqui em São Paulo – todo ano tem uma -, no Rio de Janeiro é considerado o normal de verão, e tem uma ou duas semanas que “o bicho pega”. Não queira saber o que significa “o bicho pega”.
Nessa época, eu peguei uma câmera de vídeo que eu tinha em casa – daquelas que gravavam em mini-fitas cassete -, botei em cima da mesa, apertei REC e comecei a falar para a lente sobre o apagão. Falei que dia era e o que estava acontecendo para que um público futuro, ainda inexistente, conseguisse entender o que estava acontecendo. Confesso que eu não sei bem por que fiz aquilo.
Lembro de ter achado essa fita coisa de três ou quatro anos depois, e me assisti ali, bem mais novo, falando aquilo tudo. Achei engraçado e pensei alguma coisa do tipo “foi exatamente pra isso que eu gravei esse vídeo”. À época, soava como um passado distante, uma curiosidade histórica: “Caramba, é verdade, eu vivi a crise do apagão”.
Eram outros tempos.
É claro que eu só tenho a dimensão do que aconteceu depois de fazer um exame de consciência hoje, aos 30 anos de idade. Minha cabeça é outra e hoje, inclusive, eu consigo entender no que eu estava pensando na época.
Além da curiosa vontade de gravar um vídeo explicando “para o futuro” o que tinha acontecido, eu sentia que aquilo nunca ia acabar. Achava que estava preso em um momento de encheção eterna, apesar de ter tido o ímpeto curioso (especialmente para uma criança de 12 anos) de fazer alguma coisa “para o futuro”.
Era o olho do olho do furacão. Só se falava disso no noticiário, na escola, nos jornais, quando a família se encontrava etc. Os dias se arrastavam. Parecia, realmente, eterno.
Por que essa história toda?
Longe de mim querer comparar os casos. Estamos diante de uma pandemia mundial, com dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de infectados – números, esses, que só crescem. O apagão, na época, foi só uma chatice, mas não matou ninguém – pelo menos não diretamente. A questão é outra.
Do mesmo jeito que eu falei, aos 12 anos, para o meu eu “do futuro” (este que vos escreve, agora), eu também gostaria de falar com o meu eu “do passado” (também este que vos escreve).
Vai passar. Sempre passou e está passando. Uma hora, acaba.
Eu sei que é difícil vislumbrar isso hoje. Contaminados que só aumentam, uma quarentena que começou recentemente e que talvez dure, de fato, 40 dias ou mais; histeria generalizada, comércio parado, empreendedores quebrando, economia estacionando, dólar nas alturas, desemprego, possível recessão etc. O cenário não é agradável. Beira o caótico.
É, contudo, temporário.
E como eu sei disso? Porque sempre é.
Existem relatos de civis durante a Segunda Guerra Mundial, às vésperas da rendição dos nazistas, escrevendo coisas do tipo “eu não sei até quando isso vai durar” e “parece que esse pesadelo é para sempre”. Coisas semelhantes foram escritas na época da Primeira Guerra Mundial – a primeira em que, efetivamente, as batalhas saíram dos campos e foram pra cidade. O caos, o desespero, a miséria, a fome, o racionamento já duravam anos em ambos os casos. Achar que estava próximo do final era muito mais um desejo inocente, quase infantil, do que um prognóstico. Parecia eterno.
Só no século 20, além das duas grandes guerras, passamos também pela gripe espanhola, Guerra Fria, Chernobyl e outros fenômenos, naturais ou causados pelo homem.
O que caracteriza a humanidade é sua capacidade de sobrevivência e adaptação. Somos, enquanto ente coletivo, resilientes como quase nenhum outro ser vivo. Da cidade mais ao norte da Sibéria até o assentamento humano no lugar mais quente do Saara, estamos sobrevivendo em todos os lugares.
Ainda nos falta o senso de continuidade temporal: tudo passa, nada é eterno. O olho do furacão é caótico, mas nem as piores tempestades duram para sempre.
E estamos caminhando. Relatos aqui e ali dão conta de tratamentos experimentais mais eficientes do que o esperado inicialmente, como mostra essa entrevista no Le Parisien do doutor Didier Raoult, especialista em doenças infeciosas do Institut Méditerranée Infection à Marseille, comentando o possível tratamento com Cloroquina.
Mantenhamos, então, o espírito forte e o foco firme.
Vamos sobreviver, porque é isso o que fazemos.
Abraços de um publicitário quarentenado.
Bernardo C.